diego suriadakis
Rápido, girando em meio ao caos, um rabisco do amanhã.
A praça, durante a madrugada negra, colorida com os sons da emancipação.
A televisão que não funcionará jamais virou atabaque.
Duas gargantas unidas, outros tantos ouvidos afins.
São navegantes, não vieram de barco, pés rachados, raízes do mundo.
Improvisam o sono, a fome, o futuro do branco.
Não agora. Agora é só magia.
Só o amor, diz a letra. Aspro-mavro é refrão.
Numa velocidade torturante, faz-se a hora.
4h.
Palmas ecoam.
5h.
6h, 7h, 12h e o sol apareceu:
A velha carruagem, nela partirão os príncipes.
E, a milhas e milhas, em alguns minutos, ela chegará ao presente.
pedro cunha
Para ele, viver é participar de uma grande festa. E já era de se desconfiar quando resolveu, há uns anos, com a ajuda de outros pinceis, pintar o carnaval belo-horizontino. Rafa Barros, ou simplesmente Chacha, é pai de uma porção de foliões e filho de uma alegria que rege a vida enquanto o carnaval passa.
Em uma boa conversa, ele falou sobre sua ambição enquanto coxinha, do caráter neo-expressionista do nosso carnaval, e transportou O Olhapim para um Ibirité de tempos atrás, quando Rafa ainda era um menino vestido de marmota que havia se encontrado com o congado e toda sua magia.

O Olhapim: Quem fala mais alto dentro de você: o antropólogo ou o folião? No caso do carnaval a observação participante funciona bem?
Rafa Barros: Não percebo diferença entre as duas coisas. Quando descobri a antropologia a descobri como um modo de vida, uma maneira de ver, estar e agir no mundo. Sendo assim antropologia e vida se confundem. Como viver pra mim é participar de uma grande festa a condição de folião é minha maneira de estar no mundo. É interessante perceber isso através de um deslocamento cronológico. Lembro-me muito bem de minhas estripulias carnavalescas em Ibirité ainda com seis, sete anos de idade saindo pelas ruas, em meio ao bando dos meninos, vestido de marmota ou de mulher. Mesma idade em que me aproximei do congado e de toda sua magia festiva e carnavalesca. Já perto de completar 18 anos e envolto às dúvidas com as minhas (des) orientações profissionais, Alenice, uma companheira antiga, se aproximou e disse: “Rafa, não tenho dúvida alguma que você nasceu para antropologia. Vejo isso desde que você é menino, no seu encantamento com os outros e com as diferenças do mundo.” Bem, isso é pra reafirmar que o antropólogo e o folião são únicos. Há entre eles, assim como na mentalidade mágica, uma operação de continuidade, diferente da lógica dual que tenta nos impor a modernidade. Acho que nasci com um certo dom pra folia e pra antropologia.
A observação participante é um pressuposto metodológico da antropologia. Uma construção epistemológica que teve, dentre outros objetivos, o propósito de demarcar uma diferença no campo do conhecimento. A observação participante, em minha opinião, diz muito mais respeito à disposição do sujeito em seu ser e estar no mundo. Há pessoas que fazem observação participante, mas não operam o deslocamento que ela pressupõe. Ou seja, dizem que fazem, mas não fazem. Na minha visão de mundo ser antropólogo já implica participar do mundo.
Desde pequeno procura aventuras, transcendências e loucuras e seus sonhos de mulher. Não demorou já conhecia a vizinhança, fez-se logo liderança e foi tratar com os canibais. E quando ibirité já não bastava ao Rafael, picou a mula e foi pra capital. Na universidade se tornou um bacharel, um mártir da ciência social. Chacha, o xamã da esperança, ele um dia foi criança, noutras vidas faraó. Chacha, hoje em dia ele enche a pança, com a sua pajelança, uma banquete, um ritual!
(Trecho do Samba Enredo do Bloco do Chacha de Graveola e o Lixo Polifônico)
O Olhapim: As suas fantasias são da natureza do aleatório ou existe um estratagema por trás da alegoria?
Rafa Barros: Fantasiar-se, em princípio, rompe com qualquer fundamento lógico já que toda fantasia é da ordem do aleatório. O maior barato do fantasiar é justamente essa brincadeira com a falta de sentido ou com a construção de sentidos vários. Vale tudo! É claro que pode se partir de uma séria de referências, assim como de nenhuma. O jogo está na recriação que se opera. O princípio carnavalesco tem por pressuposto a inversão das normas estabelecidas e o jogo da sátira e da crítica. É normal que a partir dessa orientação surjam, todos os anos, fantasias que dialoguem com esses fundamentos. E aí, se segurem os políticos e toda bandidagem…
O Olhapim: Enquanto coxinha, qual é a sua maior ambição?
Rafa Barros: Ser devorado!
O Olhapim: Você acredita que a nossa cidade, enquanto mulher, está sentido uma carícia mais envolvente dos seus amantes?
Rafa Barros:Acho uma falsa questão essa dicotomia de gênero. Acredito não, tenho certeza que a nossa BH passa por um momento muito interessante do ponto de vista das apropriações físicas e simbólicas que boa parte da população vem fazendo dela. E isso tem muito haver com uma ação refratária a forma como ela vem sendo conduzida politicamente.
O Olhapim: Que tipo de pintura é o carnaval belo-horizontino?
Rafa Barros:Um tradicional neo-expressionismo!
O Olhapim: Do fundo do seu coração, qual é a sensação quando se vê um carnaval como este, ou uma praia como a nossa, ou até mesmo essas ocupações que constantemente acariciam as ruas da cidade?
Rafa Barros:De que a cidade é um mundo de possibilidades e que estamos experimentando algumas delas. A certeza que fica? Que há muito ainda a ser feito, a ser destruído e recriado!
pedro cunha
Da varanda vê-se o brilho na água do mar, escuta-se o Chico na boca de sua antiga esposa Marieta. A atemporalidade da música não é a mesma do casamento já findo. Na canção as coxas ainda estão entrelaçadas.
A chuva de janeiro, excessiva em seu volume, deixa as ruas com um aspecto fantasmagórico, ouve-se somente os mais bêbados, insistentes em cantar, e o desengonçado ônibus que chega à cidade.
O brilho no mar fica cada vez mais intenso, e no tempo de uma piscada ele desaparece. Já é hora dos pescadores saírem em direção desconhecida. O momento da volta à terra firme só o mar poderá dizer.
pedro cunha
Em uma noite de natal, João, que é colega de Gaguinho, disse ter visto um rapaz, vizinho de chão de rua, colocando pisca-pisca em uma árvore perto da calçada onde moravam. A imprensa, desassossegada com o rapaz abusado pela personificação do homem rico e feliz que coloca luzes tremeluzentes em seu pinheiro artificial, solta a manchete: “Mendigos preparam árvore de natal para chamar atenção da população”. Gaguinho, que no fim do dia 26, pega um jornal para forrar a calçada, vê a manchete estrambólica e leva o periódico ao colega. João, impressionado com a capacidade criativa da imprensa local, diz:
- Olha só a conversa dos cara.
O que era uma simples vontade de se ver mais aprumado com luzes natalinas em um lugar onde o teto do quarto é o céu, tornou-se uma manchete fácil, vendável e criadora de discórdias. Desde então João conserva um receio hábil de jornalistas. Ele pensou que o repórter que o havia abordado não haveria de ter más intenções quando fizera todas aquelas perguntas sobre a sua árvore de natal. Agora, João não gosta que cheguem perto com traquitanas, nem mesmo bloquinhos são bem vindos, quando se trata de câmeras fotográficas então, ele se assusta de súbito. Já não se aventura em embelezar a cidade com suas singelas luzinhas. Preocupa-se agora com coisas mais práticas, como conseguir a guarda de seu filho pequeno que está nas mãos de sua ex-cônjuge, abatida pelo excessivo uso de crack; ou, até mesmo, a comida de mais logo que, comumente, não se encontra ao alcance.
Apesar dessas desventuras e a estapafúrdia capacidade criadora da imprensa, João se diz feliz, fala que mora em um paraíso, lamenta pelos que vivem em São Paulo, é um conhecedor indireto das terras andinas e dá o conselho aos que as desconhecem:
- Lá é que as pessoas passam fome. Aqui, nós estamos no Éden.
Ele diz com tanta certeza, pois tem amigos peruanos que lhe confessam o quanto o Brasil é maravilhoso, mesmo para aqueles que moram na rua.
Agora, a única luz que se vê perto de João, Gaguinho e do rapaz que ousou enfeitar a árvore é a da constante chama que ambos usam para se aquecer nas frias noites da calçada do centro.